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De pé, os mortos! Pede-me você uma palavra para o

De pé, os mortos! Pede-me você uma palavra para ov-Fi

Clássica Contemporânea,Alegria,Surpresa,Antecipação,Energético,Edificante,Pacífico,Dueto masculino e feminino,Mezzo feminino,Voz brilhante e penetrante,Tempo variável
avatarAntonio Maxilio Coriolano PereiraMay 4, 2026
Cipta Serupa
De pé, os mortos! Pede-me você uma palavra para o introito do Parnaso de além-túmulo, que aparecerá brevemente em nova edição. A tarefa é difícil. Nas minhas atuais condições de vida, tenho de destoar da opinião que já expendi nas contingências da carne. Os vivos do Além e os vivos da Terra não podem enxergar as coisas por prismas idênticos. Imagine se o aparelho visual do homem fosse acomodado segundo a potencialidade dos raios X: as cidades estariam povoadas de esqueletos, os campos se apresentariam como desertos, o mundo constituiria um conjunto de aspectos inverossímeis e inesperados. Cada esfera da vida está subordinada a certo determinismo, no domínio do conhecimento e da sensação. Decerto, os que receberam novamente o Parnaso de além-túmulo dirão mais ou menos o que eu disse.12 Hão de estranhar que os mortos prossigam com as mesmas tendências, tangendo os mesmos assuntos que aí constituíam a série de suas preocupações. Existem até os que reclamam contra a nossa liberdade. Desejariam que estivéssemos algemados nos tormentos do Inferno, em recompensa dos nossos desequilíbrios no mundo, como se os nossos amargores, daí, não bastassem para nos inclinar à verdade compassiva. Individualmente, é indubitável que possuímos no Além o reflexo das nossas virtudes ou das nossas misérias. Mas é razoável que apareçamos no mundo, gritando como alucinados? Os habitantes dos reinos da Morte ainda apreciam o decoro e a decência, e o nosso presente é sempre a experiência do passado e a esperança no futuro. Parnaso de além-túmulo sairá de novo, como a mensagem harmoniosa dos poetas que amaram e sofreram. Cármen Cinira aí está com os seus sonhos desfeitos, de mulher e de menina, Casimiro, com a sua sensibilidade infantil, Junqueiro, com a sua ironia, Antero, com a sua rima austera e dolorosa. Todos aí estão, dentro das suas características. Os mortos falam e a humanidade está ansiosa, aguardando a sua palavra. Conta-se que na guerra russo-japonesa, terminada a batalha de Tsushima, o grande Togo reuniu os seus soldados no cemitério de Oogama, e na tristeza majestosa do ambiente, em nome da nacionalidade, dirigiu-se aos mortos em termos comovedores; concitou-os a auxiliar as manobras militares, a visitar os cruzadores de guerra, levantando o ânimo dos companheiros que haviam ficado nas pelejas. Uma claridade nova cantou as energias espirituais do valente adversário da pátria de Stoessel e os filhos de Yoritomo venceram. Na atualidade, afigura-se-nos que os brados de todos os sofredores e infelizes da Terra se concentram numa súplica grandiosa que invade as vastidões como o grito do valoroso almirante. — De pé, os mortos!... — exclama-se — porque os vivos da Terra se perdem nos abismos tenebrosos. Os institutos da civilização têm sido impotentes para resolver o problema do nosso ser e dos nossos destinos. As filosofias e as religiões estenderam sobre nós o manto carinhoso das suas concepções, mas esses mantos estão rotos!... Temos frio, temos fome, temos sede! E os considerados mortos falam ao mundo na sua linguagem de estranha purificação. A Ciência, zelosa de suas conquistas, ainda não ouviu a sua vibração misteriosa, mas os filhos do infortúnio sentem-se envolvidos na onda divina de um novo Gloria in excelsis, e a humanidade sofredora sente-se no caminho consolador da sublime esperança. Humberto de Campos